segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

This place is a zoo

Sentia que a vida ali era uma gincana sinistra de quem conseguia uma casa, um carro e um casamento na igreja matriz primeiro. Toda a sua energia se concentrou em sair dali. Mal se dedicara aos empregos que conseguia, sempre com os olhos em alguma coisa distante. E, conforme a pequena cidade se esforçava para se parecer mais com aquela outra, com shoppings, restaurantes caros e até congestionamentos às seis da tarde, mais ela sabia que não era nada daquilo. O que ela desconhecia a gincana do outro lugar, de quem era mais capaz de pensar só em si mesmo.

Não existem apartamentos virtuais

Quando contava para a família em cada, em longos e-mails de desabafo ou pelo telefone, achavam simplesmente que era mentira e que não queria assumir a responsabilidade. A primeira ficava na esquina de uma rua erma onde ela foi assaltada, pela primeira vez na vida; a segunda estava coalhada de baratas mortas, sendo que ficava no sétimo andar de um edifício famoso; e a terceira era anunciada como imóvel independente, mas na verdade um quarto de pensão. Era ainda mais difícil convencê-los de que se tratava de quitinetes de trinta metros quadrados quando contava que custavam exatamente o seu salário.

Um sofá como endereço

Ela chegou à cidade com uma mala e alguns livros. Tinham avisado que era difícil encontrar um apartamento, mas com poucas exigências e tantas redes sociais não deveria ser tão impossível. A primeira pessoa que conheceu já tinha achado uma companheira de quarto e só marcara o encontro porque achou que ela não apareceria. Depois de sair correndo do trabalho para achar o endereço do segundo apartamento na hora marcada, sequer a receberam, deixaram um recado com o porteiro. E a terceira ficou doente três encontros seguidos. Enquanto isso, o amigo de infância perguntava quando é que ela se mudaria.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Hoje é dia de sopa, bebê

Vamos ficar bem quietinhos e fingir que ninguém xerocava os livros que a incompetência das editoras não permitia imprimir em cópias suficientes para todos os estudantes. Vamos manter em segredo que os CDs chegados ao Brasil por um preço que comia toda a nossa mesada se multiplicavam em fitas cassete, e que foi assim que ouvimos Nevermind; que mesmo os discos das bandas nacionais eram tão mal distribuídos que isso inspirou o título do terceiro disco do Pato Fu. Enfim, vamos deixá-los acreditar que a pirataria nunca existiu antes da internet e que só a cometemos por maldade e mesquinharia.

Que desinteligência


De que certas subcelebridades virtuais e âncoras de telejornal não se dão conta é que só se repete à exaustão uma frase que se achou ridícula, seja pelo seu grau de ignorância, seja pelo seu tom arrogante: não se aprecia a citação em si, mas o flagrante de alguém que se acredita superior pela sua suposta elegância ou porque sua filha faz um curso no exterior. O que a grande mídia parece ignorar é a ironia implícita no processo de transformar uma frase em meme e que, numa geração em teoria apática, se tornou uma forma velada de crítica social.

Menos a Luiza, que está no Canadá

Era uma vez a única pessoa no mundo que não tinha um perfil no Facebook. Enquanto as conversas de bar giravam em torno de joguinhos no site, ou todas as fotos da viagem eram publicadas no perfil de alguém, ou o convite da festa na página de eventos, ela não ficava sabendo de nada. E o que no início era desinteresse se transformou em obstinação teimosa: todos os programas pareciam apenas desculpas para postar fotos novas ou comentários como “estou entrando no cinema”. Qual o sentido de haver toda uma rede de computadores quando tudo se concentra num único site?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A Fraternidade é Vermelha

É muito fácil crer na democracia enquanto somos prósperos, seguros e saudáveis. É muito mais simples crer que a guerra é necessária quando suas vítimas são pobres anônimos a milhares de quilômetros de distância. Então surge uma espécie de teste, um evento que nos obriga a continuar acreditando no que é certo, no lugar do que é fácil. E é ainda mais doloroso quando se percebe que o outro nos conhece tão bem – embora não o contrário – e sabe nos proporcionar um espetáculo digno de todas as câmeras de TV ligadas, monumentos construídos com orçamento milionário e teorias da conspiração.